Uma mistura de tudo que quero, acredito e ouso ser e fazer! "Ousar é um privilégio dos que tem coragem." WARAT
Coisas da Tamonca
- Mônica
- Conceição do Coité, Bahia, Brazil
- Pedagoga, Matemática, Mãe, Gestora da Escola Antônio Bahia-Conceição do Coité, Petista por enquanto, Amo LULA, luto por justiça, igualdade, odeio qualquer tipo de calúnia, discriminação ou preconceito. E vou vivendo... Música, poesia, livros, arte, cultura, internet, política e educação são minhas diversões. No mais o mundo é uma caixinha de surpresas, é só querer descobrir!
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
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O Pequeno Príncipe-I e II
Capítulo I
Certa vez, quando tinha seis anos, vi num livro sobre a Floresta Virgem, « Histórias Vividas », uma imponente gravura. Representava ela uma jibóia que engolia uma fera. Eis a cópia do desenho.
Dizia o livro: « As jibóias engolem, sem mastigar, a presa inteira. Em seguida, não podem mover-se e dormem os seis meses da digestão »,..
Refleti muito então sobre as aventuras da selva, e fiz, com lápis de cor, o meu primeiro desenho. Meu desenho número 1 era assim :
Mostrei minha obra-prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes fazia medo. Responderam-me: « Por que é que um chapéu faria medo » ? Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jibóia digerindo um elefante.
Desenhei então o interior da jibóia, a fim de que as pessoas grandes pudessem compreender. Elas têm sempre necessidade de explicações. Meu desenho número 2 era assim :
As pessoas grandes aconselharam-me deixar de lado os desenhos de jibóias abertas ou fechadas, e dedicar-me de preferência à geografia, à história, ao cálculo, à gramática. Foi assim que abandonei, aos seis anos, uma esplêndida carreira de pintor. Eu fora desencorajado pelo insucesso do meu desenho número 1 e do meu desenho número 2. As pessoas grandes não compreendem nada sozinhas, e é cansativo, para as crianças, estar toda hora explicando.
Tive, pois de escolher uma outra profissão e aprendi a pilotar aviões. Voei, por assim dizer, por todo o mundo. E a geografia, é claro, me serviu muito. Sabia distinguir, num relance, a China e o Arizona. É muito útil, quando se está perdido na noite.
Tive assim, no decorrer da vida, muitos contatos com muita gente séria. Vivi muito no meio das pessoas grandes. Vi-as muito de perto. Isso não melhorou, de modo algum, a minha antiga opinião.
Quando encontrava uma que me parecia um pouco lúcida, fazia com ela a experiência do meu desenho número 1, que sempre conservei comigo. Mas queria saber se ela era verdadeiramente compreensiva. Mas respondia sempre: « É um chapéu ». Então eu não lhe falava nem de jibóias, nem de florestas virgens, nem de estrelas. Punha-me ao seu alcance. Falava-lhe de bridge, de golfe, de política, de gravatas. E a pessoa grande ficava encantada de conhecer um homem tão razoável.
Capítulo II
Vivi, portanto só, sem amigo com quem pudesse realmente conversar, até o dia, cerca de seis anos atrás, em que tive uma pane no deserto do Saara. Alguma coisa se quebrara no motor. E como não tinha comigo mecânico ou passageiro, preparei-me para empreender sozinho o difícil conserto. Era, para mim, questão de vida ou de morte. Só dava para oito dias a água que eu tinha.
Na primeira noite adormeci, pois sobre a areia, a milhas e milhas de qualquer terra habitada. Estava mais isolado que o náufrago numa tábua, perdido no meio do mar. Imaginem então a minha surpresa, quando, ao despertar do dia, uma vozinha estranha me acordou. Dizia:
- Por favor... Desenha-me um carneiro...
- Heim!
- Desenha-me um carneiro...
Pus-me de pé, como atingido por um raio. Esfreguei os olhos. Olhei bem. E vi um pedacinho de gente inteiramente extraordinário, que me considerava com gravidade. Eis o melhor retrato que, mais tarde, consegui fazer dele. Meu desenho é, seguramente, muito menos sedutor que o modelo. Não tenho culpa. Fora desencorajado, aos seis anos, da minha carreira de pintor, e só aprendera a desenhar jibóias abertas e fechadas.
Olhava, pois essa aparição com os olhos redondos de espanto. Não esqueçam que eu me achava a mil milhas de qualquer terra habitada. Ora, o meu homenzinho não me parecia nem perdido, nem morto de fadiga, nem morto de fome, de sede ou de medo. Não tinha absolutamente a aparência de uma criança perdida no deserto, a mil milhas da região habitada.
Quando pude enfim articular palavra, perguntei-lhe :
- Mas... Que fazes aqui?
E ele repetiu então, brandamente, como uma coisa muito séria :
- Por favor... Desenha-me um carneiro...
Quando o mistério é muito impressionante, a gente não ousa desobedecer. Por mais absurdo que aquilo me parece a mil milhas de todos os lugares habitados e em perigo de morte, tirei do bolso uma folha de papel e uma caneta. Mas lembrei-me então que eu havia estudado de preferência geografia, história, cálculo e gramática, e disse ao garoto (com um pouco de mau humor) que eu não sabia desenhar.
Respondeu-me :
- Não tem importância. Desenha-me um carneiro.
Como jamais houvesse desenhado um carneiro, refiz para ele um dos dois únicos desenhos que sabia. O da jibóia fechada. E fiquei estupefato de ouvir o garoto replicar:
- Não! Não! Eu não quero um elefante numa jibóia. A jibóia é perigosa e o elefante toma muito espaço. Tudo é pequeno onde eu moro. Preciso é de um carneiro. Desenha-me um carneiro.
Então eu desenhei.
Olhou atentamente, e disse:
- Não! Esse já está muito doente. Desenha outro.
Desenhei de novo :
Meu amigo sorriu com indulgência:
- Bem vês que isto não é um carneiro. É um bode... Olha os chifres...
Fiz mais uma vez o desenho. Mas ele foi recusado como os precedentes :
- Este aí é muito velho. Quero um carneiro que viva muito.
Então, perdendo a paciência, como tinha pressa de desmontar o motor, rabisquei o desenho ao lado :
E arrisquei :
- Esta é a caixa. O carneiro está dentro.
Mas, fiquei surpreso de ver iluminar a face do meu pequeno juiz :
- Era assim mesmo que eu queria! Será preciso muito capim para esse carneiro ?
- Por quê ?
- Porque é muito pequeno onde eu moro...
- Qualquer coisa chega. Eu te dei um carneirinho de nada !
Inclinou a cabeça sobre o desenho :
- Não é tão pequeno assim... Olha ! Adormeceu...
E foi desse modo que eu travei conhecimento, um dia, com o pequeno príncipe.
domingo, 28 de novembro de 2010
Quero Meu Filho de Volta
Triste, porém real!
Relato escrito por Celso Athayde
Noite de São João, 1999. O Felha ligou pro meu celular para avisar que mais um Falcão tinha partido em cruz, tinha morrido. Não era nada de anormal se considerássemos a vida que eles levam, mas, pensando bem, era anormal até demais, se considerarmos que são jovens e que são o futuro do Brasil.
E se não são, é porque o Brasil não tem futuro. A frase que eu mais escutava é que esses rapazes querem vida fácil, por isso não trabalham, mas não, vida de Falcão não é nada fácil. E mais, os caçadores de Falcão também não foram agraciados com a ociosidade, eles são caçadores e, muitas vezes, a caça.
Felha ligou pedindo para separar a câmera, que ele ia cobrir o enterro no dia seguinte, que a mãe do garoto tinha ligado para avisar. Mesmo o convite sendo uma iniciativa da família, pra nós, era sempre constrangedor. Apesar de ter um lado positivo nisso tudo. É que nunca filmamos os Falcões em seus ambientes sem que eles concordassem e, em algumas oportunidades, suas mães tinham que concordar também. Por isso temos depoimentos das mães, além dos menores marginais. E, se suas mães nos chamavam depois para filmar os velórios, era a prova cabal de que tinham entendido nossas propostas e argumentos, tinham comprado nossa luta. Era porque elas, a exemplo de seus filhos, acreditavam que esse projeto poderia, não resolver as suas vidas, mas trazer luz para o entendimento de muitas outras e, assim, poupá-las. Esse talvez seja o melhor resumo. Esse nosso documentário, assim como os livros que surgem junto com ele, deve ser o reflexo da vida, apesar da morte.
Era, sei lá eu, acho que o sexto, oitavo Falcão morto, não sei direito. Só sei que era mais um pra botar na conta.
Felha, como de costume, pegou os equipamentos e foi nos encontrar lá no cemitério, porque não teve velório. O corpo do garoto estava em decomposição. Ir lá ver o corpo era deprimente. Pior era ir lá com uma câmera. A impressão que dava era que estávamos torcendo para os garotos morrerem, e não era nada disso.
O Felha praticamente fazia tudo sozinho, nessas ocasiões. Eu não lembro de ter perguntado nada a ninguém nesses momentos de tristeza. Confesso até que morria de vergonha de estar ali, mas era o nosso dever, era o combinado com todos os Falcões.
Uma verdadeira choradeira. A mãe desse garoto, como a grande maioria, não se conformava de maneira nenhuma, apesar dela mesma nos ter alertado, e alertado ao próprio Falcão, sobre o provável futuro que o aguardava.
Essa pobre e triste mãe nos disse, em uma das entrevistas, que seu filho tinha que encontrar forças para sair daquela vida, que outros parentes dela — inclusive um irmão — já tinham morrido no crime e que essa vida só traria prejuízo. Todos esses exemplos não foram suficientes para desencorajar o rapaz, pelo contrário. O crime parecia fazer mais sentido do que qualquer palavra amiga de mãe, do que qualquer conselho seguro da família. A questão central era o fato de que os próprios Falcões não precisavam de conselhos, já que eles mesmos tinham plena consciência dos erros que cometiam e do pouco tempo de vida a que estavam condenados. Parecia que precisavam viver intensamente.
Mesmo sabendo de tudo isso, muito mais que cada um de nós, mesmo tendo passado anos da sua vida administrando essa questão, essa mãe se sentia traída pelo destino. Ela chorava, assim como todas as mães chorariam. Eu particularmente conhecia bem essa dor.
Minha mãe derramou essas lágrimas. Meu irmão, Negão César, sumiu. Se estivesse vivo, teria hoje 44 anos. Se foi há, pelo menos, 13. Me ligaram dizendo que ele tinha tido uma briga de trânsito e que foi parar no morro do Cajueiro em Madureira. Eu não sabia se era verdade, mas era a única versão que explicava o desaparecimento. Meu irmão nunca teve envolvimento com o crime. Ele só tinha um defeito: não tinha noção do perigo e, se tinha, o subestimava sempre. Segundo pessoas que passavam na rua, ele teve seu carro abalroado por um outro com alguns homens dentro e foi atrás para tentar reaver seu prejuízo. Os homens entraram no morro do Cajueiro, ele entrou atrás e, lá, descobriu que o carro era do bicho. Eles o mataram e o jogaram na avenida Automóvel Clube. Só que eu ainda não tinha essas informações no dia em que fui contatado e percorri hospitais e delegacias, até que estava quase desistindo. Mas vi entrando na DP uma radiopatrulha, me dirigi ao cabo e perguntei se sabia de alguma coisa sobre uma pessoa com as características do meu irmão. O cabo ficou me olhando e parecia que ia entrar em desespero. Ele baixou a cabeça, encostou na viatura e parecia sentir uma emoção forte, parecia ter sido tomado por uma grande tristeza. Ele me perguntou se eu não lembrava dele. Respondi que não, que nunca o tinha visto. Talvez não o reconhecesse por causa da farda. Ele me disse que a noiva dele era cliente da minha mãe, que também morava em Madureira e que naquela mesma semana tinha ido na casa da minha mãe experimentar umas roupas que havia encomendado e que ele era amigo do César. Ele me disse que, infelizmente, achava que o corpo que ele tinha visto era dele, que não tinha reconhecido porque estava muito inchado, mas que agora, depois de saber do seu sumiço, achava que era do meu irmão...
Pediu para eu entrar no carro e fomos lá confirmar se era. No caminho, ele informava aos seus superiores pelo rádio sobre o nosso deslocamento. Nunca na vida fui a um lugar com tanto medo de encontrar o que eu procurava. Em alguns momentos, torcia para não ser ele, pensava que meu irmão tinha que estar vivo. Em outros, pedia para a tortura acabar logo, pensava que nossa família não podia passar pelo drama de perder alguém que desaparece para sempre, sem deixar vestígios. E o carro seguia firme, rumo à avenida Automóvel Clube, local conhecido por ser uma grande concentração de desova humana. Eu sempre evitava passar por lá e, nas vezes em que passei, sempre havia corpos no chão. Nunca acreditaria que meu sangue pudesse marcar aquele chão algum dia. Minha mãe estava em pânico. Pessoas ligavam para ela o dia inteiro, uns para dizer que sentiam muito, outros para oferecer ajuda e ainda outros para encher o saco e apavorar mais ainda a minha querida mãe. Pedi para alguém levá-la para a casa de Sepetiba, uma praia cheia de lama que fica a uma hora e vinte minutos do centro da cidade. Enquanto isso, iria continuar a minha busca e, quando eu tivesse notícia, alguém levaria pra ela.
A viatura freou ao lado do corpo do meu irmão, percebi que era ele pela bermuda, era do tipo que minha mãe fazia. Saí do carro, o policial me abraçou. Não choramos, apesar de eu estar chorando agora ao escrever esse texto... desculpe....
O corpo do meu irmão estava no asfalto extremamente quente, o que fez sua cabeça inchar. Parecia um grande boneco, irreconhecível. Alguém tinha que ser forte. Minha mãe, a maior fortaleza que eu conheci na vida, a minha maior inspiração para as lutas que travo até hoje, havia entregado os pontos e aguardava o pior em Sepetiba. Meu irmão tinha cinco filhos, eu não podia fraquejar, tinha que levantar a cabeça, fazer o enterro e tocar a vida. De certa maneira, o jogo havia terminado pra ele, mas não para nós, a bola tinha que continuar rolando.
Uma missão me aguardava agora, avisar a minha mãe. Ninguém melhor do que eu poderia fazer isso, e se algum desastrado fosse lá, talvez eu tivesse que fazer mais um enterro. Segui para Sepetiba ao encontro de uma mulher que estava prestes a sair da tristeza e entrar em desespero, e eu seria, de certo modo, o responsável. Ela estava desacompanhada, estava na sala...
Desculpe... É difícil falar sobre isso... Prometo que não vou mais chorar...
Parei o carro na porta da casa, vi minha mãe na sala, sentada numa cadeira. Ela sempre foi a rainha das piadas, das sacanagens. Como eu iria falar que ela havia perdido uma metade de seu corpo?
Abri o portão, entrei. Ela levantou da cadeira com dificuldade, devia estar fraca, sem comer, sem dormir. Me olhou e disse:
— Não precisa dizer nada, meu filho... Eu já sabia. Só queria que você fosse embora e me deixasse aqui sozinha.
— Mãe, deixa eu...
— Não, filho, deixa mamãe aqui, preciso ficar sozinha.
— Tá, mãe.
Saí da casa, fui para a esquina pensar na vida, no futuro, nos sobrinhos, no enterro. Sentei num meio-fio e fiquei ali com a sensação de ter perdido as duas coisas que mais foram minhas na vida. Meu irmão e minha mãe...
Sim, mas vamos voltar para a mãe do Falcão.
Ela chorava, outras pessoas também choravam muito, era uma representação típica de um enterro de jovem, todos inconformados. Era triste ver sua esposa, que não passava dos 15 anos. Era doloroso ver seu filhinho de mais ou menos oito meses, dormindo nos braços da mãe. Quando os últimos punhados de terra foram jogados sobre o caixão, a mãe do Falcão explodiu na maior das crises de saudade do filho.
— Eu quero meu filho de volta! Eu quero meu filho!
Ao mesmo tempo, ela culpava o prefeito, xingava o governador, o presidente e também o pai do garoto.
Lembrar esta cena é triste. Seu desespero fazia todos chorarmos. Podemos chamar de solidariedade um choro coletivo, tendo a mãe como maestrina da tristeza? Pobre mãe, triste mãe!
Deixei o Felha e o Bill para trás e comecei a andar rápido para sair de perto daquele quadro deprimente. Apesar do sol escaldante do Rio de Janeiro, os familiares não tinham nenhuma pressa para ir embora e não arredavam os pés da cova. Continuei caminhando até que cheguei perto do portão de saída, que fica ao lado de uma capela onde havia um velório. Outras famílias estavam ali reunidas, chorando e lamentando seu defunto, não havia diferença entre os sentimentos. Só que nesse caso eu não sentia nada. Era como se eu tivesse achado um álbum de fotografia na rua e desfolhasse as pessoas estranhas.
Eles estavam chorando seus entes queridos, mas não havia nada em comum entre nós. A única coisa que me aproximava deles eram as árvores entre a rua e a entrada da capela, sob as quais eu me escondia do sol, para aguardar a volta do meu cortejo fúnebre.
— Eu quero meu filho de volta! Jesus, eu quero meu filho, pelo amor de Deus! Eu não mereço isso. O Estado não dá apoio.
Era a mãe do outro falecido, uma mulher preta, de lenço, fisicamente muito diferente da mãe do Falcão, mas historicamente idêntica, pois as duas eram negras. Ela chorava e era abraçada por outras pessoas.
Seria só mais um enterro, se não fosse pelas palavras das mães acusando o governo. Por isso, passei a ficar atento também àquele velório.
— Sangue bom, como foi?
Era eu me intrometendo na morte alheia e perguntando a um rapaz que veio dividir comigo a sombra da mangueira.
— Foi tiroteio, ele foi baleado e não resistiu.
Como eu não tinha visto ninguém dar tiro de festim pro alto e não vi ninguém de farda, o cara só podia ser bandido, já que ele era preto e morreu de tiro. Eu raciocinava exatamente como fui treinado, estava reproduzindo a lógica branca asfaltista, condenando o jovem morto e lhe negando a possibilidade de ser um mártir. E não parei por aí, fui adiante:
— Qual era a comunidade dele?
Essa pergunta não era simples. O seu real objetivo, oculto na simples indagação, era saber a qual facção o morto pertencia. Dependendo da área dele, meu sentimento poderia mudar um pouco. Eu poderia até mesmo não achar tão ruim assim, mas, se alguém me perguntar isso, eu nego até a morte, tudo em nome do sentimento humanitário.
— Não, responsa, ele não era bandido não, ele era PM, morreu trocando tiro — disse o rapaz, que devia ser primo do morto, talvez.
— Foi mal amigão! Foi a minha primeira mancada do dia.
Pressionei o beiço superior no inferior, imprimindo o quanto eu sentia esse fato, e dei as costas para o rapaz, encerrando o assunto. Lembrei então o comportamento das duas mães. Não vi o corpo do PM que morreu, nem sei se ele deixou mulher e filhos. Mas uma coisa é certa, deixou uma mãe eternamente apaixonada, igual à mãe do Falcão e à minha. Se este livro fosse ficção, se o que estou escrevendo não tivesse compromisso com a estrita obrigação de dizer a verdade, eu criaria uma história na qual o PM e o Falcão tivessem sido abatidos um pelo outro, na mesma favela, e, no final, descobriríamos que as mães dos mortos trabalhavam na mesma fábrica de calcinha... Além disso, que as esposas dos falecidos estudavam na mesma escola. Mas não, não vou fazer isso, pois cada um de nós sabe que essa realidade é bem próxima e é perfeitamente possível, sim.
O fato dos dois estarem sendo enterrados no mesmo cemitério, o fato das suas mães serem idênticas, de terem familiares da mesma cor e origem me fez viajar por muitas outras histórias das quais tive notícia. Histórias de Falcões que eram caçados de dia pela polícia e que caçavam policiais em blitz à noite para vingar a morte de seus comparsas. Mas em nenhum momento, eu tinha parado para pensar sobre essa questão com a qual me deparava.
A questão era muito simples: o sistema é branco e opressor. Os oprimidos, em geral, são os pretos e os pobres que historicamente sempre cumpriram bem o papel de se matarem para atender à sede de sangue do poder. E naquele momento eu via, sem ninguém me contar, que as lágrimas que caíam não eram dos governos que as mães acusavam de serem os responsáveis pelas mortes de seus filhos. Eram das mães, pobres, pretas, que podiam perfeitamente ser irmãs de sangue e, naquele momento, eram irmãs de dor, irmãs de sangue derramado pela arma da ignorância.
Meu cortejo chegou, meu cortejo passou, e eu embarquei nele, triste e cabisbaixo, pensativo. Alguns participantes olhavam para a dor da família do PM sem saber de nada, sem nada comentar. Seguimos o nosso rumo. Saímos pelo portão principal e todos, ou quase todos, fizemos o sinal-da-cruz, em respeito aos mortos. Não comentei com ninguém aquele fato, guardei comigo a reflexão que hoje divido com você. Talvez as guerras e as mortes entre os ditos marginais e policiais só mudem quando eles tiverem a consciência de que foram gerados nos mesmos úteros.
Relato escrito por Celso Athayde
Noite de São João, 1999. O Felha ligou pro meu celular para avisar que mais um Falcão tinha partido em cruz, tinha morrido. Não era nada de anormal se considerássemos a vida que eles levam, mas, pensando bem, era anormal até demais, se considerarmos que são jovens e que são o futuro do Brasil.
E se não são, é porque o Brasil não tem futuro. A frase que eu mais escutava é que esses rapazes querem vida fácil, por isso não trabalham, mas não, vida de Falcão não é nada fácil. E mais, os caçadores de Falcão também não foram agraciados com a ociosidade, eles são caçadores e, muitas vezes, a caça.
Felha ligou pedindo para separar a câmera, que ele ia cobrir o enterro no dia seguinte, que a mãe do garoto tinha ligado para avisar. Mesmo o convite sendo uma iniciativa da família, pra nós, era sempre constrangedor. Apesar de ter um lado positivo nisso tudo. É que nunca filmamos os Falcões em seus ambientes sem que eles concordassem e, em algumas oportunidades, suas mães tinham que concordar também. Por isso temos depoimentos das mães, além dos menores marginais. E, se suas mães nos chamavam depois para filmar os velórios, era a prova cabal de que tinham entendido nossas propostas e argumentos, tinham comprado nossa luta. Era porque elas, a exemplo de seus filhos, acreditavam que esse projeto poderia, não resolver as suas vidas, mas trazer luz para o entendimento de muitas outras e, assim, poupá-las. Esse talvez seja o melhor resumo. Esse nosso documentário, assim como os livros que surgem junto com ele, deve ser o reflexo da vida, apesar da morte.
Era, sei lá eu, acho que o sexto, oitavo Falcão morto, não sei direito. Só sei que era mais um pra botar na conta.
Felha, como de costume, pegou os equipamentos e foi nos encontrar lá no cemitério, porque não teve velório. O corpo do garoto estava em decomposição. Ir lá ver o corpo era deprimente. Pior era ir lá com uma câmera. A impressão que dava era que estávamos torcendo para os garotos morrerem, e não era nada disso.
O Felha praticamente fazia tudo sozinho, nessas ocasiões. Eu não lembro de ter perguntado nada a ninguém nesses momentos de tristeza. Confesso até que morria de vergonha de estar ali, mas era o nosso dever, era o combinado com todos os Falcões.
Uma verdadeira choradeira. A mãe desse garoto, como a grande maioria, não se conformava de maneira nenhuma, apesar dela mesma nos ter alertado, e alertado ao próprio Falcão, sobre o provável futuro que o aguardava.
Essa pobre e triste mãe nos disse, em uma das entrevistas, que seu filho tinha que encontrar forças para sair daquela vida, que outros parentes dela — inclusive um irmão — já tinham morrido no crime e que essa vida só traria prejuízo. Todos esses exemplos não foram suficientes para desencorajar o rapaz, pelo contrário. O crime parecia fazer mais sentido do que qualquer palavra amiga de mãe, do que qualquer conselho seguro da família. A questão central era o fato de que os próprios Falcões não precisavam de conselhos, já que eles mesmos tinham plena consciência dos erros que cometiam e do pouco tempo de vida a que estavam condenados. Parecia que precisavam viver intensamente.
Mesmo sabendo de tudo isso, muito mais que cada um de nós, mesmo tendo passado anos da sua vida administrando essa questão, essa mãe se sentia traída pelo destino. Ela chorava, assim como todas as mães chorariam. Eu particularmente conhecia bem essa dor.
Minha mãe derramou essas lágrimas. Meu irmão, Negão César, sumiu. Se estivesse vivo, teria hoje 44 anos. Se foi há, pelo menos, 13. Me ligaram dizendo que ele tinha tido uma briga de trânsito e que foi parar no morro do Cajueiro em Madureira. Eu não sabia se era verdade, mas era a única versão que explicava o desaparecimento. Meu irmão nunca teve envolvimento com o crime. Ele só tinha um defeito: não tinha noção do perigo e, se tinha, o subestimava sempre. Segundo pessoas que passavam na rua, ele teve seu carro abalroado por um outro com alguns homens dentro e foi atrás para tentar reaver seu prejuízo. Os homens entraram no morro do Cajueiro, ele entrou atrás e, lá, descobriu que o carro era do bicho. Eles o mataram e o jogaram na avenida Automóvel Clube. Só que eu ainda não tinha essas informações no dia em que fui contatado e percorri hospitais e delegacias, até que estava quase desistindo. Mas vi entrando na DP uma radiopatrulha, me dirigi ao cabo e perguntei se sabia de alguma coisa sobre uma pessoa com as características do meu irmão. O cabo ficou me olhando e parecia que ia entrar em desespero. Ele baixou a cabeça, encostou na viatura e parecia sentir uma emoção forte, parecia ter sido tomado por uma grande tristeza. Ele me perguntou se eu não lembrava dele. Respondi que não, que nunca o tinha visto. Talvez não o reconhecesse por causa da farda. Ele me disse que a noiva dele era cliente da minha mãe, que também morava em Madureira e que naquela mesma semana tinha ido na casa da minha mãe experimentar umas roupas que havia encomendado e que ele era amigo do César. Ele me disse que, infelizmente, achava que o corpo que ele tinha visto era dele, que não tinha reconhecido porque estava muito inchado, mas que agora, depois de saber do seu sumiço, achava que era do meu irmão...
Pediu para eu entrar no carro e fomos lá confirmar se era. No caminho, ele informava aos seus superiores pelo rádio sobre o nosso deslocamento. Nunca na vida fui a um lugar com tanto medo de encontrar o que eu procurava. Em alguns momentos, torcia para não ser ele, pensava que meu irmão tinha que estar vivo. Em outros, pedia para a tortura acabar logo, pensava que nossa família não podia passar pelo drama de perder alguém que desaparece para sempre, sem deixar vestígios. E o carro seguia firme, rumo à avenida Automóvel Clube, local conhecido por ser uma grande concentração de desova humana. Eu sempre evitava passar por lá e, nas vezes em que passei, sempre havia corpos no chão. Nunca acreditaria que meu sangue pudesse marcar aquele chão algum dia. Minha mãe estava em pânico. Pessoas ligavam para ela o dia inteiro, uns para dizer que sentiam muito, outros para oferecer ajuda e ainda outros para encher o saco e apavorar mais ainda a minha querida mãe. Pedi para alguém levá-la para a casa de Sepetiba, uma praia cheia de lama que fica a uma hora e vinte minutos do centro da cidade. Enquanto isso, iria continuar a minha busca e, quando eu tivesse notícia, alguém levaria pra ela.
A viatura freou ao lado do corpo do meu irmão, percebi que era ele pela bermuda, era do tipo que minha mãe fazia. Saí do carro, o policial me abraçou. Não choramos, apesar de eu estar chorando agora ao escrever esse texto... desculpe....
O corpo do meu irmão estava no asfalto extremamente quente, o que fez sua cabeça inchar. Parecia um grande boneco, irreconhecível. Alguém tinha que ser forte. Minha mãe, a maior fortaleza que eu conheci na vida, a minha maior inspiração para as lutas que travo até hoje, havia entregado os pontos e aguardava o pior em Sepetiba. Meu irmão tinha cinco filhos, eu não podia fraquejar, tinha que levantar a cabeça, fazer o enterro e tocar a vida. De certa maneira, o jogo havia terminado pra ele, mas não para nós, a bola tinha que continuar rolando.
Uma missão me aguardava agora, avisar a minha mãe. Ninguém melhor do que eu poderia fazer isso, e se algum desastrado fosse lá, talvez eu tivesse que fazer mais um enterro. Segui para Sepetiba ao encontro de uma mulher que estava prestes a sair da tristeza e entrar em desespero, e eu seria, de certo modo, o responsável. Ela estava desacompanhada, estava na sala...
Desculpe... É difícil falar sobre isso... Prometo que não vou mais chorar...
Parei o carro na porta da casa, vi minha mãe na sala, sentada numa cadeira. Ela sempre foi a rainha das piadas, das sacanagens. Como eu iria falar que ela havia perdido uma metade de seu corpo?
Abri o portão, entrei. Ela levantou da cadeira com dificuldade, devia estar fraca, sem comer, sem dormir. Me olhou e disse:
— Não precisa dizer nada, meu filho... Eu já sabia. Só queria que você fosse embora e me deixasse aqui sozinha.
— Mãe, deixa eu...
— Não, filho, deixa mamãe aqui, preciso ficar sozinha.
— Tá, mãe.
Saí da casa, fui para a esquina pensar na vida, no futuro, nos sobrinhos, no enterro. Sentei num meio-fio e fiquei ali com a sensação de ter perdido as duas coisas que mais foram minhas na vida. Meu irmão e minha mãe...
Sim, mas vamos voltar para a mãe do Falcão.
Ela chorava, outras pessoas também choravam muito, era uma representação típica de um enterro de jovem, todos inconformados. Era triste ver sua esposa, que não passava dos 15 anos. Era doloroso ver seu filhinho de mais ou menos oito meses, dormindo nos braços da mãe. Quando os últimos punhados de terra foram jogados sobre o caixão, a mãe do Falcão explodiu na maior das crises de saudade do filho.
— Eu quero meu filho de volta! Eu quero meu filho!
Ao mesmo tempo, ela culpava o prefeito, xingava o governador, o presidente e também o pai do garoto.
Lembrar esta cena é triste. Seu desespero fazia todos chorarmos. Podemos chamar de solidariedade um choro coletivo, tendo a mãe como maestrina da tristeza? Pobre mãe, triste mãe!
Deixei o Felha e o Bill para trás e comecei a andar rápido para sair de perto daquele quadro deprimente. Apesar do sol escaldante do Rio de Janeiro, os familiares não tinham nenhuma pressa para ir embora e não arredavam os pés da cova. Continuei caminhando até que cheguei perto do portão de saída, que fica ao lado de uma capela onde havia um velório. Outras famílias estavam ali reunidas, chorando e lamentando seu defunto, não havia diferença entre os sentimentos. Só que nesse caso eu não sentia nada. Era como se eu tivesse achado um álbum de fotografia na rua e desfolhasse as pessoas estranhas.
Eles estavam chorando seus entes queridos, mas não havia nada em comum entre nós. A única coisa que me aproximava deles eram as árvores entre a rua e a entrada da capela, sob as quais eu me escondia do sol, para aguardar a volta do meu cortejo fúnebre.
— Eu quero meu filho de volta! Jesus, eu quero meu filho, pelo amor de Deus! Eu não mereço isso. O Estado não dá apoio.
Era a mãe do outro falecido, uma mulher preta, de lenço, fisicamente muito diferente da mãe do Falcão, mas historicamente idêntica, pois as duas eram negras. Ela chorava e era abraçada por outras pessoas.
Seria só mais um enterro, se não fosse pelas palavras das mães acusando o governo. Por isso, passei a ficar atento também àquele velório.
— Sangue bom, como foi?
Era eu me intrometendo na morte alheia e perguntando a um rapaz que veio dividir comigo a sombra da mangueira.
— Foi tiroteio, ele foi baleado e não resistiu.
Como eu não tinha visto ninguém dar tiro de festim pro alto e não vi ninguém de farda, o cara só podia ser bandido, já que ele era preto e morreu de tiro. Eu raciocinava exatamente como fui treinado, estava reproduzindo a lógica branca asfaltista, condenando o jovem morto e lhe negando a possibilidade de ser um mártir. E não parei por aí, fui adiante:
— Qual era a comunidade dele?
Essa pergunta não era simples. O seu real objetivo, oculto na simples indagação, era saber a qual facção o morto pertencia. Dependendo da área dele, meu sentimento poderia mudar um pouco. Eu poderia até mesmo não achar tão ruim assim, mas, se alguém me perguntar isso, eu nego até a morte, tudo em nome do sentimento humanitário.
— Não, responsa, ele não era bandido não, ele era PM, morreu trocando tiro — disse o rapaz, que devia ser primo do morto, talvez.
— Foi mal amigão! Foi a minha primeira mancada do dia.
Pressionei o beiço superior no inferior, imprimindo o quanto eu sentia esse fato, e dei as costas para o rapaz, encerrando o assunto. Lembrei então o comportamento das duas mães. Não vi o corpo do PM que morreu, nem sei se ele deixou mulher e filhos. Mas uma coisa é certa, deixou uma mãe eternamente apaixonada, igual à mãe do Falcão e à minha. Se este livro fosse ficção, se o que estou escrevendo não tivesse compromisso com a estrita obrigação de dizer a verdade, eu criaria uma história na qual o PM e o Falcão tivessem sido abatidos um pelo outro, na mesma favela, e, no final, descobriríamos que as mães dos mortos trabalhavam na mesma fábrica de calcinha... Além disso, que as esposas dos falecidos estudavam na mesma escola. Mas não, não vou fazer isso, pois cada um de nós sabe que essa realidade é bem próxima e é perfeitamente possível, sim.
O fato dos dois estarem sendo enterrados no mesmo cemitério, o fato das suas mães serem idênticas, de terem familiares da mesma cor e origem me fez viajar por muitas outras histórias das quais tive notícia. Histórias de Falcões que eram caçados de dia pela polícia e que caçavam policiais em blitz à noite para vingar a morte de seus comparsas. Mas em nenhum momento, eu tinha parado para pensar sobre essa questão com a qual me deparava.
A questão era muito simples: o sistema é branco e opressor. Os oprimidos, em geral, são os pretos e os pobres que historicamente sempre cumpriram bem o papel de se matarem para atender à sede de sangue do poder. E naquele momento eu via, sem ninguém me contar, que as lágrimas que caíam não eram dos governos que as mães acusavam de serem os responsáveis pelas mortes de seus filhos. Eram das mães, pobres, pretas, que podiam perfeitamente ser irmãs de sangue e, naquele momento, eram irmãs de dor, irmãs de sangue derramado pela arma da ignorância.
Meu cortejo chegou, meu cortejo passou, e eu embarquei nele, triste e cabisbaixo, pensativo. Alguns participantes olhavam para a dor da família do PM sem saber de nada, sem nada comentar. Seguimos o nosso rumo. Saímos pelo portão principal e todos, ou quase todos, fizemos o sinal-da-cruz, em respeito aos mortos. Não comentei com ninguém aquele fato, guardei comigo a reflexão que hoje divido com você. Talvez as guerras e as mortes entre os ditos marginais e policiais só mudem quando eles tiverem a consciência de que foram gerados nos mesmos úteros.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Mostra de Arte Literária - Escola Antônio Bahia
Data: 30/11/2010
Horário: 14 horas
Local: Centro Cultural Ana Rios de Araújo
Cidade: Conceição do Coité-Bahia
terça-feira, 23 de novembro de 2010
domingo, 21 de novembro de 2010
Consciência Negra: A mão da limpeza
Consciência Negra: A mão da limpeza: "Chico Buarque - A mão da limpeza ''O branco inventou que o negro Quando não suja na entrada Vai sujar na saída, ê Imagina só Vai sujar na ..."
Mandela, um lutador!
“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por sua origem ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender; E, se elas podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto.”
Nelson Mandela, Janeiro de 2003
Nelson Mandela, Janeiro de 2003
Refletindo a Lei 10639/03 no currículo escolar.
O currículo vivenciado pelos alunos vai além dos conteúdos escolhidos para serem ministrados pelos professores. A existência, na experiência escolar, de um “currículo oculto”, ao lado do currículo oficial, está confirmada por vários estudos sobre o tema. Silva (1999) discute sobre o conceito de “currículo oculto” como o conjunto de experiências não explicitadas pelo currículo oficial nos permitindo ampliar a reflexão sobre o tipo de mensagens cotidianas – traduzidas pelas páginas dos livros escolares, pelo preconceito racial entre colegas e entre professores e alunos – que são levadas ao conjunto dos alunos negros e mestiços. Ele inclui conteúdos não ditos, valores morais explicitados nos olhares e gestos, apreciações e repreensões de condutas, aproximações e repulsas de afetos, legitimações e indiferenças em relação a atitudes, escolhas e preferências. Em atividades propostas em sala, percebe-se o nível de exclusão traduzido no plano da violência simbólica a que estes alunos estão submetidos na sua experiência escolar. Nesta medida, uma discussão acerca do preconceito racial e das suas manifestações na sociedade e, em particular, na escola, precisa ser feita. Ela é imprescindível porque é preciso ampliar a compreensão do problema, para então se poder refletir sobre o que e por que deve ser escolhido como conteúdo para compor um currículo escolar que privilegie um direcionamento do olhar sobre os negros e mestiços na nossa história e cultura.
Ao tomarmos o currículo escolar como o conjunto de experiências pelas quais os alunos passam, o que nos permite agregar ao currículo oficial o currículo oculto, que é constituído por todos aqueles aspectos do ambiente escolar que, sem fazer parte do currículo oficial, explícito, contribuem de forma implícita para aprendizagens sociais relevantes, o que se aprende no currículo oculto são fundamentalmente atitudes, comportamentos, valores e orientações..." (Silva, 2001:78), ainda segundo Silva (2001), podemos também incluir na idéia de currículo, uma outra noção, que é a de currículo cotidiano, pois é no dia a dia que o currículo se realiza. Neste sentido, o grande desafio para qualquer professor é manter em sua prática cotidiana os princípios que, segundo ele próprio acredita, devem orientar a sua ação. É muito fácil deixá-los de lado em razão das inúmeras questões que aparecem na dinâmica escolar, desde dificuldades das mais variadas ordens relativas aos alunos e suas famílias até as que dizem respeito à estrutura da escola, a escolha dos livros e outros materiais pedagógicos ou o escasso tempo e orientação para a pesquisa e planejamento do trabalho. Enfim, o cotidiano nos enreda em tal armadilha que muitas vezes as boas intenções ficam em parte presas nas folhas de planejamento. O currículo, como já vimos, é um lugar de escolhas; ele não é neutro e precisa ser alimentado pela ação do professor.
Na medida em que estamos tratando de um conteúdo omitido, negligenciado e pouco conhecido pela escola e pelo professor, que é a restituição da presença e da dignidade da população negra como sujeito na história e na cultura brasileira, precisamos tomar cuidado para não cometermos uma falha pedagógica muito comum nas nossas escolas. Todo o projeto político pedagógico tem que ser alterado no intuito de contemplar as mudanças exigidas pela lei, isso tem que se dar de forma responsável e cuidados para que sua abrangência seja justa. Quando a sociedade de alguma forma dá mostras de que determinados conceitos ou valores estão em falta nas relações sociais, fica para a escola a função de resgatar e tratar os mesmos de forma ética e responsável. A mesma deve primar por executar ações e cuidar da perpetuação dos resultados obtidos, pois eles são quase sempre esquecidos, e o que se vê é o retorno às práticas anteriores. É muito comum o comentário dos educadores nas escolas dizendo: “De que adiantou tal experiência?” Com isso eles se referem às atitudes posteriores dos alunos em relação aos conteúdos contemplados nessas ações, que desaparecem de cena tão logo os eventos terminam. Contudo, embora esta constatação seja verdadeira, é preciso lembrar que ela é apenas parte da verdade, pois em várias situações as ações coletivas mobilizam e tocam alguns alunos individualmente. E é claro que, em algumas experiências mais integradas, esses projetos acontecem como ponta de lança e são incorporados ao cotidiano escolar.
A lei deixa nítida a obrigatoriedade do ensino de conteúdos sobre a matriz negra africana na constituição da nossa sociedade no âmbito de todo o currículo escolar e sugere as áreas de História, Literatura e Educação Artística como áreas especiais para o tratamento desse tema, tanto no Ensino Fundamental como no Ensino Médio. Entretanto, como já foi antes enfatizado, é preciso que estejamos convencidos da urgência e da importância de recuperar esse debate, na história da sociedade brasileira e nos currículos escolares. Pois, sem o pleno entendimento do por que desses conteúdos serem fundamentais, corre-se o risco de cumprir a lei burocraticamente e, com isso, reforçar situações de preconceito racial ao qual estamos submetidos.
Por Mônica Ramos
sábado, 20 de novembro de 2010
Agência Brasil: Proporção de pretos com curso superior é um terço dos brancos
Proporção de pretos com curso superior é um terço dos brancos
Gilberto Costa-Repórter da Agência Brasil
Brasília – Alvo de ações contrárias no Supremo Tribunal Federal (STF) as políticas afirmativas de cotas para acesso às universidades públicas e privadas podem ter justificativa nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo a última Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar (Pnad 2009), apenas 4,7% das pessoas autodeclaradas pretas com mais de 25 anos têm curso superior. O percentual dos ditos pardos é 5,3% enquanto dos brancos é 15% - mais que o triplo da porcentagem dos pretos.
Entre os atuais estudantes de 18 a 24 anos, o desequilíbrio é menor. O percentual de pretos e pardos universitários sobe, mas as estatísticas mostram que ainda é grande a diferença no acesso ao nível superior. “Enquanto cerca de dois terços, ou 62,6% dos estudantes brancos estão nesse nível de ensino em 2009, os dados mostram que há menos de um terço para os outros grupos: 29,2% dos pretos e 31,8% dos pardos”, descreve a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE
Na comparação de uma década nota-se, no entanto, melhoria do acesso de pretos e pardos à universidade. Em 1999, o IBGE mediu que apenas 7,5% dos pretos e 8% dos pardos de 18 a 24 anos estavam na universidade, contra 33,4% dos brancos.
Nesse período, cerca de 90 universidades públicas e privadas aderiram a alguma forma de política afirmativa em favor de pretos ou de egressos do ensino médio público. Nos últimos dez anos, o IBGE também verifica “uma recuperação da identidade racial”. Conforme a Síntese dos Indicadores Sociais, o percentual de quem se declara preto passou de 5,4% para 6,9%.
Se os pretos são minoria nos estratos escolares superiores, a situação é inversa na base da pirâmide. Entre os brancos, 5,9% declaram-se analfabetos; enquanto entre os pretos e pardos esse percentual é superior a 13%. Se for considerado o analfabetismo funcional (menos de quatro anos de estudo), a situação mantém-se perversa: 25% dos pretos e pardos são analfabetos funcionais. Entre os brancos o percentual é 15%.
A situação escolar de pretos e pardos também pode ser verificada na média de anos de estudo. “A população branca de 15 anos ou mais de idade tem, em média, 8,4 anos de estudo em 2009, enquanto a de pretos e pardos é 6,7 anos”.
Historicamente, a baixa escolaridade tem reflexo na remuneração. O IBGE acrescenta que além desse problema, os pretos e pardos recebem menos que os brancos em todas as faixas de escolaridade. O percentual é pelo menos 20% abaixo. No total, pretos e pardos ganham 40% menos que os brancos.
Os pretos e pardos no Brasil formam a maioria da população (51,1%). Segundo o IBGE, 44,2% dos brasileiros declaram-se pardos e 6,9% pretos.
Edição: Aécio Amado
Gilberto Costa-Repórter da Agência Brasil
Brasília – Alvo de ações contrárias no Supremo Tribunal Federal (STF) as políticas afirmativas de cotas para acesso às universidades públicas e privadas podem ter justificativa nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo a última Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar (Pnad 2009), apenas 4,7% das pessoas autodeclaradas pretas com mais de 25 anos têm curso superior. O percentual dos ditos pardos é 5,3% enquanto dos brancos é 15% - mais que o triplo da porcentagem dos pretos.
Entre os atuais estudantes de 18 a 24 anos, o desequilíbrio é menor. O percentual de pretos e pardos universitários sobe, mas as estatísticas mostram que ainda é grande a diferença no acesso ao nível superior. “Enquanto cerca de dois terços, ou 62,6% dos estudantes brancos estão nesse nível de ensino em 2009, os dados mostram que há menos de um terço para os outros grupos: 29,2% dos pretos e 31,8% dos pardos”, descreve a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE
Na comparação de uma década nota-se, no entanto, melhoria do acesso de pretos e pardos à universidade. Em 1999, o IBGE mediu que apenas 7,5% dos pretos e 8% dos pardos de 18 a 24 anos estavam na universidade, contra 33,4% dos brancos.
Nesse período, cerca de 90 universidades públicas e privadas aderiram a alguma forma de política afirmativa em favor de pretos ou de egressos do ensino médio público. Nos últimos dez anos, o IBGE também verifica “uma recuperação da identidade racial”. Conforme a Síntese dos Indicadores Sociais, o percentual de quem se declara preto passou de 5,4% para 6,9%.
Se os pretos são minoria nos estratos escolares superiores, a situação é inversa na base da pirâmide. Entre os brancos, 5,9% declaram-se analfabetos; enquanto entre os pretos e pardos esse percentual é superior a 13%. Se for considerado o analfabetismo funcional (menos de quatro anos de estudo), a situação mantém-se perversa: 25% dos pretos e pardos são analfabetos funcionais. Entre os brancos o percentual é 15%.
A situação escolar de pretos e pardos também pode ser verificada na média de anos de estudo. “A população branca de 15 anos ou mais de idade tem, em média, 8,4 anos de estudo em 2009, enquanto a de pretos e pardos é 6,7 anos”.
Historicamente, a baixa escolaridade tem reflexo na remuneração. O IBGE acrescenta que além desse problema, os pretos e pardos recebem menos que os brancos em todas as faixas de escolaridade. O percentual é pelo menos 20% abaixo. No total, pretos e pardos ganham 40% menos que os brancos.
Os pretos e pardos no Brasil formam a maioria da população (51,1%). Segundo o IBGE, 44,2% dos brasileiros declaram-se pardos e 6,9% pretos.
Edição: Aécio Amado
Agência Brasil: Dia da Consciência Negra: equidade para superar desigualdade
Dia da Consciência Negra: equidade para superar desigualdade
Gilberto Costa-Repórter da Agência Brasil
Brasília – A Universidade de Brasília (UnB) foi a primeira universidade federal a estabelecer uma política de cotas raciais para ingresso de novos alunos. Na UnB também funciona o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab), coordenado por Nelson Olokofá Inocêncio, professor do Instituto de Artes (IDA). Inocêncio é autor do livro Consciência Negra em Cartaz e um dos responsáveis pela criação de cursos de história e arte afro-brasileira.
Mestre em Comunicação Social, ele conversou sobre o Dia da Consciência Negra com a Agência Brasil. Ele avalia que o país tem se modificado, assumindo a existência do racismo, mas aponta que a diminuição da igualdade vai exigir políticas públicas que promovam não apenas igualdade, mas equidade. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Agência Brasil: Que importância tem o Dia da Consciência Negra?
Nelson Olokofá Inocêncio: Essa data é um marco, foi uma conquista. Quem propôs foi o movimento negro, especificamente o Grupo Palmares, do Rio Grande do Sul, no início dos anos 1970. Esse dia seria, segundo os documentos históricos, o dia que Zumbi dos Palmares foi capturado e morto, quando o Quilombo dos Palmares teria caído nas mãos de Domingos Jorge Velho, bandeirante. Palmares teve uma existência longa e ocupou um pedaço de terra significativo: praticamente todo o estado de Alagoas mais um pedaço de Pernambuco. A data tem um simbolismo enorme, representa a luta da população negra contra o escravismo e a opressão. O Quilombo de Palmares também foi um projeto coletivo. É importante pensar nisso porque a luta contra o racismo também é coletiva e a população negra deve se organizar coletivamente.
ABr: A situação dos negros melhorou desde quando o movimento passou a reivindicar a comemoração da data?
Inocêncio: Eu não posso dizer que nós estamos em uma condição ideal, mas seria ledo engano afirmar que não houve avanço. Se dissesse que não houve avanço, estaria, inclusive, negando o papel do movimento negro na luta pelas transformações sociais, desconsiderando esse legado, essa contribuição significativa do ativismo negro no Brasil nos últimos 30 ou 40 anos. Houve um avanço significativo. Primeiro, um presidente da República reconhecer publicamente que o Brasil produz racismo, que foi o caso do presidente Fernando Henrique no final da sua segunda gestão. Isso é um marco para a cultura brasileira. Até então, o Estado não tinha sequer admitido a possibilidade de ser responsável pela segregação da população negra. Depois, veio o Luiz Inácio [Lula da Silva] que conseguiu desenvolver algumas políticas importantes, como a criação da Seppir [Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial] e a aprovação da Lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da história e cultura negra. E o que é mais importante, conseguiu colocar na agenda oficial o debate sobre relações raciais. Isso é conquista. Quem viveu as décadas anteriores, as últimas décadas do século 20, sabe como foi difícil pautar esse tema, como foi difícil colocar esse tema na agenda. Hoje, inevitavelmente, o debate sobre o racismo está convocado.
Leia entrevista na íntegra...
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
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